O Surgimento da Umbanda: Uma Religião Brasileira de Síntese
Introdução
A Umbanda é uma religião genuinamente brasileira, nascida do encontro entre tradições africanas, indígenas, católicas e do Espiritismo kardecista. Embora sua data oficial de fundação seja 15 de novembro de 1908, suas raízes remontam a processos históricos mais profundos de mistura cultural e resistência espiritual. Este artigo apresenta um panorama do surgimento da Umbanda, seus fundadores, suas bases doutrinárias e as principais controvérsias que cercam sua origem.
1. O Marco Fundador: 15 de Novembro de 1908
A narrativa mais difundida sobre a fundação da Umbanda remete a um episódio ocorrido em 1908, na cidade de Niterói, Rio de Janeiro. Segundo o parecer da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (BRASIL, 2007), o jovem Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, sofria de uma paralisia inexplicável pelos médicos. Sua família o levou à Federação Espírita de Niterói, onde, durante uma sessão, Zélio foi tomado por uma entidade espiritual que se identificou como Caboclo das Sete Encruzilhadas.
Conforme relatado por Agência Brasil (2014), os espíritas presentes consideraram aquelas manifestações — de indígenas e africanos escravizados — como "atrasadas" ou "inferiores". A entidade, porém, teria respondido com uma pergunta provocadora: seriam realmente "atrasados" apenas por terem sido, em outras vidas, indígenas ou negros? Em seguida, anunciou que fundaria um novo culto, no qual esses espíritos poderiam transmitir suas mensagens. Declarou: "Se querem saber meu nome, eu lhes digo: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim não existem caminhos fechados."
No dia seguinte, 16 de novembro de 1908, Zélio fundou em sua casa a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, onde ocorreu a primeira sessão oficial de Umbanda. Posteriormente, a data de 15 de novembro foi consagrada como o dia do nascimento da religião. Em 2012, o governo brasileiro oficializou essa data como o Dia Nacional da Umbanda, por meio da Lei nº 12.644 (BRASIL, 2012).
2. Raízes Históricas: Os Quilombos e a Macumba
Reduzir o surgimento da Umbanda ao episódio de 1908 seria uma simplificação. Segundo o parecer da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (BRASIL, 2007), as raízes da Umbanda remontam aos quilombos — comunidades formadas por escravizados fugidos, indígenas, brancos pobres e marginalizados.
Nesses espaços, distantes do controle da Igreja Católica e do Estado, desenvolveu-se uma religiosidade híbrida, na qual elementos do catolicismo, das religiões africanas e das crenças indígenas se misturaram. Essa prática ficou conhecida como macumba, caracterizada pela comunicação com espíritos. Posteriormente, o Espiritismo kardecista foi incorporado, dando origem ao embrião do que viria a ser a Umbanda (BRASIL, 2007).
Assim, o marco de 1908 deve ser compreendido como um momento de institucionalização: práticas já existentes no cotidiano popular ganharam um nome, uma estrutura ritualística e uma narrativa fundadora.
3. Doutrina e Entidades Espirituais
A Umbanda caracteriza-se por um panteão de entidades espirituais que representam diferentes grupos sociais e étnicos do Brasil:
Caboclos: espíritos de indígenas, associados à força da natureza e à sabedoria ancestral;
Pretos Velhos: espíritos de africanos escravizados, símbolos de humildade, paciência e resistência;
Crianças (Erês): representações da pureza e da alegria;
Exus e Pombagiras: entidades ligadas aos caminhos, à proteção e às encruzilhadas.
O Caboclo das Sete Encruzilhadas, entidade fundadora, foi posteriormente identificado como a reencarnação do Padre Gabriel Malagrida, jesuíta que atuou no Nordeste brasileiro e foi condenado à fogueira pela Inquisição (PEREIRA, s.d.). Essa identidade confere à Umbanda um simbolismo de resistência espiritual contra poderes ortodoxos e persecutórios.
Segundo Pereira (s.d.), Malagrida "foi perseguido pela Igreja, mas hoje é lembrado como o precursor da Umbanda — uma religião que acolhe todos os excluídos". Os rituais ocorrem em terreiros, têm caráter caritativo e são fundamentados no Evangelho cristão, embora incorporem elementos africanos e indígenas. A caridade é princípio central: a prática religiosa visa o auxílio espiritual e material aos necessitados.
4. Controvérsias e Perspectivas Críticas
A origem da Umbanda não é consenso entre estudiosos e praticantes. Alguns adeptos "puristas" argumentam que a Umbanda já existia antes de 1908, especialmente em cultos de Caboclo na Bahia, onde há registros de adoração a entidades indígenas (RUFINO, 2019).
O pesquisador Luiz Rufino (2019) critica a noção de "religião de síntese" ou "fusão", argumentando que essa abordagem perpetua uma "tonalidade de subordinação racial", na qual saberes negros e indígenas são vistos como inferiores ou secundários em relação ao modelo europeu. Para Rufino (2019), a Umbanda deve ser compreendida a partir da epistemologia da encruzilhada — um espaço de cruzamento, mas também de afirmação de identidades subalternizadas.
Essas perspectivas revelam que a própria narrativa de origem da Umbanda é um campo em disputa, refletindo tensões raciais, sociais e religiosas da sociedade brasileira.
Considerações Finais
A Umbanda nasce como expressão da pluralidade cultural brasileira. Seu surgimento oficial em 1908, com Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas, representa a formalização de práticas que já existiam nos quilombos e nas periferias urbanas (BRASIL, 2007). Mais do que uma "fusão" de tradições, a Umbanda é um espaço de resistência espiritual, no qual vozes historicamente silenciadas — indígenas, africanas e afro-brasileiras — encontram um canal de expressão e legitimidade.
Compreender sua origem exige reconhecer tanto o marco fundador quanto os processos históricos mais amplos, bem como as disputas contemporâneas sobre identidade, memória e poder.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Há 39 anos, morria no Rio o fundador da Umbanda. Brasília, 3 out. 2014.
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 5.687/2005. Parecer da Comissão de Educação e Cultura. Brasília, 2007.
BRASIL. Lei nº 12.644, de 16 de maio de 2012. Institui o Dia Nacional da Umbanda. Diário Oficial da União, Brasília, 2012.
PEREIRA, André Luiz Freire. A reencarnação do caboclo ganha um passado intelectualizado. Rio de Janeiro: CEFET-RJ, s.d.
RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.
Comentários
0 comentáriosDeixe seu comentário
Seja o primeiro a comentar esta notícia.